
Viajar nas férias nem sempre combina com levar o pet junto. Seja por longos deslocamentos, restrições de hospedagem ou pela rotina intensa dos passeios, muitos tutores optam por deixar cães e gatos em locais especializados. Em Santa Maria, esses serviços registram aumento significativo na demanda durante o período de férias, com crescimento de 50% em relação aos meses de menor movimento.
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O médico veterinário Marcelo Ilha, fundador do espaço que oferece os serviços de creche e hotel, explica que a procura começa bem antes do período de descanso. Segundo ele, as reservas para datas mais disputadas, como Natal, Réveillon, Carnaval costumam iniciar com bastante antecedência:
— O serviço de hotel não fecha nunca, funciona o ano inteiro durante todos os dias, até em feriados. Mas sempre próximo a feriadões e em época de final de ano, as reservas começam a acontecer a partir de setembro ou outubro. O nosso cliente já está bem adaptado, ele sabe que precisa fazer a reserva com antecedência, senão ele não vai conseguir vaga. Por exemplo, agora a gente tá praticamente com as reservas do Carnaval esgotadas — conta.

O aumento do movimento está diretamente ligado à conscientização dos tutores sobre o bem-estar dos animais, segundo ele. Marcelo destaca que, em muitos casos, levar o pet na viagem pode gerar mais estresse do que conforto. Viagens longas, restrições em hospedagens, passeios que não permitem a presença de animais e até questões de saúde fazem com que deixar o pet em um local preparado seja a opção mais segura.
— Muitas vezes, no consultório, os tutores me perguntam: 'é melhor eu levar meu cachorro ou deixar meu cachorrinho?’. E eu digo: ‘depende’. Se a ideia é aproveitar as férias, curtir, passear, fazer trilha, ficar o dia todo na praia, então, não. Nesse caso, o ideal é deixar o pet em um lugar seguro e curtir as férias. Quando se leva um pet, é para fazer férias com ele, como se fosse uma criança. Ele não vai poder passar o dia todo na praia. Há praias, inclusive, em que ele nem pode ir. Há lugares em que o tutor não vai poder sair porque não aceitam pets, e até mesmo a locação de um espaço (hotel, Airnbnb) já fica mais difícil. Não se pode deixar o pet em um lugar estranho, que ele nunca foi, como um apartamento desconhecido, por três ou quatro horas. Então, é preciso pensar: essa viagem é para eu curtir as férias? Se for, o melhor é encontrar um lugar bem seguro para deixar o cachorrinho o gatinho e aproveitar.

Rotina estruturada e foco no bem-estar

Durante a estadia no hotel, que fica em Camobi, os pets não ficam confinados. A proposta é oferecer uma rotina que respeite o comportamento natural dos animais, com atividades ao longo de todo o dia. Inclusive, os cães hospedados no hotel convivem livremente com os alunos da creche que frequentam o espaço diariamente. Os animais são organizados em grupos conforme porte, idade e nível de energia, o que garante segurança durante as interações e reduz o risco de conflitos. A grande maioria dos hóspedes já é cliente fixo da creche,
A rotina monitorada de perto por uma equipe de 10 monitores inclui alimentação em horários definidos, atividades ao ar livre, brincadeiras, exercícios de gasto energético, estímulos cognitivos e momentos de descanso. Uma das práticas utilizadas é o forrageio, atividade que estimula o olfato, que é um dos sentidos mais importantes para os cães, e contribui para o enriquecimento ambiental.

Acompanhados de um plantonista, todos dormem em área interna, climatizada e higienizada.
— Se não houver organização e rotina, seria impossível lidar com tantos animais juntos. Aqui, nada é por acaso. Tudo é pensado para que eles fiquem equilibrados e confortáveis — destaca o veterinário.

A lotação máxima do hotel pode chegar a até 60 pets, número normalmente atingido apenas em períodos de alta demanda, durante o fim e inicio de cada ano. Ainda assim, ele ressalta que a capacidade é variável e depende do perfil dos animais hospedados.
— Quando temos muitos cães de grande porte, o número de vagas precisa ser reduzido. Já com mais pets de pequeno porte, conseguimos ampliar a lotação, sempre respeitando o espaço físico e o bem-estar dos animais - explica.

Tutores longe, mas sempre conectados

E mesmo à distância, os tutores acompanham a rotina dos animais por meio de mensagens, fotos e vídeos enviados ao longo do dia. Em média, recebem cerca de 20 atualizações diárias, com informações sobre alimentação, atividades, descanso e comportamento.
— Ninguém melhor do que o tutor para saber se o pet está bem. Ver o animal brincando, com comportamento tranquilo e interagindo, isso traz muita segurança para quem está viajando - explica Ilha.
Com a alta demanda, o veterinário também faz um alerta sobre a importância de buscar serviços profissionais e regularizados. Segundo ele, ainda existem ofertas clandestinas ou amadoras, sem alvará sanitário, fiscalização da Vigilância Sanitária ou registro no Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV).
— Não estamos cuidando de um animal, mas sim um membro da família. O lugar que o gato e o cachorro ocupam hoje dentro dos lares é como membro da família. Então, a pessoa está deixando um filho aqui com a gente, e isso exige uma responsabilidade muito grande.

Mercado em expansão em Santa Maria

Fundado em 2016, neste ano o Marcelo Ilha Espaço Pet completa dez anos de atuação e foi o primeiro na cidade a oferecer creche e hotel para pets. O serviço, que começou como uma alternativa para cães que passavam muito tempo sozinhos em casa, hoje atende uma demanda cada vez maior, impulsionada por mudanças no estilo de vida das famílias e pela valorização do bem-estar animal.
O serviço funciona em dois endereços: no bairro Camobi, onde está localizado o hotel pet, e próximo ao Parque Itaimbé, onde Marcelo mantém um espaço exclusivo para a creche, voltado ao atendimento diário dos cães.

Cenário se repete em diferentes modelos de hospedagem pet
Além do espaço comandado por Marcelo Ilha, a reportagem também conversou com outros estabelecimentos de Santa Maria que registram aumento na demanda durante a temporada de férias. Nesses locais, as atividades da creche são temporariamente suspensas para que as equipes consigam dar conta exclusivamente das hospedagens.
E apesar das particularidades de cada espaço, há semelhanças na forma de funcionamento: os animais ficam soltos, sem uso de baias, dormem em ambientes adequados, com camas individuais, climatização e acompanhamento constante de monitores. Outro ponto em comum é o perfil da clientela santa-mariense. A maioria dos pets hospedados já é conhecida das equipes, formada por clientes fixos da creche ou por tutores que utilizam o hotel todos os anos. Ainda assim, os responsáveis relatam que sempre há a chegada de um ou outro animal novo, embora em menor número.
Como as creches ficam fechadas durante o período, os estabelecimentos conseguem manter a operação apenas com as equipes habituais, sem necessidade de contratação extra fixa para a temporada.
Quintal da Brisa

No Quintal da Brisa, a alta temporada começa ainda antes do Natal e se estende até depois do Carnaval. O espaço, que funciona no formato de hospedagem familiar, atende no máximo 14 a 15 cães por dia, limite que, segundo a proprietária, é atingido continuamente durante o verão.
— Do dia 20 de dezembro até o início de fevereiro é sempre lotadíssimo. A procura praticamente dobra em relação ao resto do ano - afirma Brisa Peres, bióloga e fundadora do espaço.
Criado a partir da atuação como pet sitter em 2018, o Quintal da Brisa passou a oferecer hospedagem em casa própria a partir de 2020 e incluiu a creche em 2021. Durante o verão, no entanto, o serviço diurno é suspenso a partir da segunda quinzena de dezembro para dar conta da alta demanda por hospedagem.
— Nesse período eu fecho a creche e fico só com o hotel. Além da lotação, tem a questão do calor, que torna inviável manter a rotina de creche à tarde - explica.
Segundo Brisa, cerca de 70% a 80% dos hóspedes já são clientes recorrentes, que frequentam a creche ou já utilizaram o hotel em outros momentos. Ainda assim, ela estima que entre 25% e 30% dos cães atendidos no fim do ano sejam novos, o que exige avaliações e adaptações prévias.
— Aqui não tem baia nem canil. Para funcionar bem, os cães precisam se conhecer e estar adaptados. Por isso, a reserva antecipada é essencial - reforça
Caramelo Creche Pet

Já a Caramelo Creche Pet, que funciona no Bairro Rosário, também sente com força o impacto da alta temporada. O espaço foi inaugurado em novembro de 2022 e atende até 25 cães na hospedagem, com funcionamento diário. Já a creche opera de segunda a sexta e faz pausas pontuais em datas específicas, como Natal e Ano Novo, justamente para dar conta do aumento das hospedagens.
— Durante o ano, temos uma média baixa de hóspedes. Em feriados, esse número dobra. No Natal e Ano Novo, chega a quadruplicar - relata a proprietária Mira Lammel.
Segundo ela, a ocupação no último Réveillon chegou a 23 cães, número próximo da capacidade máxima. Após esse pico, a demanda segue elevada entre janeiro e março, embora em níveis menores do que no fim do ano.
— Natal e Ano Novo são disparados os períodos de maior procura. Depois disso, o movimento segue alto até março, mas já permite retomar a creche normalmente - explica.
A Caramelo mantém uma equipe fixa de três pessoas e não altera a estrutura durante a alta temporada. Assim como em outros estabelecimentos da cidade, os cães ficam soltos durante o dia e passam por avaliação comportamental obrigatória antes de ingressar no hotel ou na creche.
Refúgio da Tia Mi

No Refúgio da Tia Mi, no Bairro São José, a alta temporada começa em dezembro, mas atinge o ápice em janeiro. De acordo com a médica veterinária Michele Gleice da Rosa, a procura cresce gradualmente até o Carnaval.
— Em dezembro, o aumento gira em torno de 50%. Em janeiro, chega perto de 80%, e segue assim até depois do Carnaval. Depois acalma (o movimento) - explica.
O espaço funciona na casa de Michele, onde os cães têm acesso aos ambientes internos, com separação por porte e rotina personalizada. Durante as férias, a creche entra em recesso, estratégia adotada para manter o equilíbrio do grupo.
— Quando tem muito hóspede e poucos cães da creche, a dinâmica não funciona bem. O hóspede não conhece a rotina, isso pode gerar estresse. Por isso, o recesso ajuda muito.
Segundo Michele, a prioridade na hospedagem é sempre para cães que já frequentam a creche ou que passaram por um período de adaptação. Neste verão, ela optou por recusar a maioria dos pedidos de novos clientes.
— Não é sobre lotar o espaço. É sobre qualidade. Prefiro perder dinheiro do que perder o bem-estar dos cães e a confiança dos tutores - afirma.
Com equipe formada por três pessoas, o Refúgio trabalha com limites flexíveis, ajustados conforme o perfil dos animais hospedados, o que reforça um padrão em comum entre os estabelecimentos da cidade: menos vagas e mais atenção individual.